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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Lenda das Arcas



Segundo a lenda, que aqui deixo nuns versos do Conde de Monsaraz, existem no interior dos muros do Castelo de Montemor-o-Novo, enterradas pelos seus primeiros habitantes - sabe-se lá se romanos, se mouros, se cristãos -, duas grandes arcas. Uma, cheia de ouro e riquezas tais que fartarão toda a terra de Portugal. Mas a outra, cheia de peste, que, uma vez aberta, vomitará a fome, a febre e a miséria que matarão toda a gente, sem dó nem piedade. Ninguém até hoje lhes ousou tocar, Nem mesmo em época de crise.  Por isso, as arcas continuam bem escondidas. Quem terá ousadia de as procurar e a imprudência de as abrir?...

                        
Entre escombros na rudeza
De vestuta fortaleza,
Batidas de vento agreste,
Empedernidas, cerradas,
Há duas arcas pejadas,
Uma de oiro outra de peste

Ninguém sabe ao certo qual
Das duas arcas encerra,
O fecundo manancial
Que fartará de oiro a terra
Mesquinha de Portugal;
Ou qual, se não imprudente
Lhe erguer a tampa funérea
Vomitará de repente
A fome, a febre, a miséria,
Que matará toda a gente

Sempre que o povo faminto,
Maltrapilho e miserando,
Fosse ele cristão ou moiro,
Entrou no tosco recinto
Para salvar-me arrombando
 A arca pejada de oiro,
Quedou-se, os braços erguidos,
O olhar atónito e errante,
Sem atinar de que lado
Vinha morrer-lhe aos ouvidos
Uma voz agonizante
Entre ameaças e gemidos

"Ó povo de Montemor,
Se estás mal, se és desgraçado
Suspende, toma cuidado,
Que podes ficar pior!"

E nestas perplexidades
E eternas hesitações
Hão-de passar as idades,
Suceder-se as gerações
E continuar na rudeza,
Batidas de vento agreste,
Empedernidas, cerradas,
As duas arcas pejadas,
Uma de oiro outra de peste

       Nestes versos o Conde de Monsaraz não refere, concretamente se se trata de Montemor-o-Novo, ou Montemor-o-Velho, localidade que reclama a lenda como tendo origem no seu castelo.
       Eu sempre a ouvi contar como sendo do castelo de Montemor-o-Novo, e, tendo em conta a ligação do Conde a Monsaraz, e a localização desta em relação aos dois castelos que reclamam a lenda como sua, acredito que seja mesmo Montemor-o-Novo que inspirou os versos.
       Claro que a lenda pode existir nas duas localidades, como acontece com outras lendas, que têm versões semelhantes em vários locais.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Lenda da Moira encantada

Conta a lenda, que uma jovem Princesa Moira veio para Montemor para casar com um Nobre Fidalgo da terra, como garantia de um tratado de paz e comércio com um Rei Moiro.
A jovem era linda, e, enquanto a vila vivia dias de paz e prosperidade, entre o casal cresceu um profundo amor.
Entretanto o reino começa a enfrentar dias difíceis com a morte do Rei de Portugal, que não deixou filho varão, e com os Espanhóis a querem tomar conta do território.
Com toda esta instabilidade, Montemor suspende o comércio, e, por precaução, tranca as portas do castelo.
Passado algum tempo, chega ao castelo um mensageiro de D. Nuno Alvares Pereira, pedindo que todos os Portugueses se juntassem à causa nacional, e que, todos os que estivessem capazes, se juntassem em Évora, para formar um exército que combatesse os invasores.
O Nobre Fidalgo Montemorense parte assim no comando de cerca de duzentos homens da guarnição do castelo, deixando a sua Princesa muito chorosa.
Passaram muitos meses, e a Princesa continuava olhando diariamente o horizonte, do alto da torre de menagem, esperando o seu amado.
Um dia, finalmente, o Nobre Fidalgo regressou, trazendo com ele uma carta assinada pelo Mestre de Aviz, e com o selo de D. João, Regente dos Reinos de Portugal e dos Algarves, onde se pedia ao Alcaide que, devido aos feitos valorosos em combate e em defesa da Pátria, recebesse condignamente os valorosos soldados Montemorenses e o seu comandante.
Passadas algumas semanas, e os soldados, comandados pelo Nobre Fidalgo, regressam de novo à guerra, deixando a linda Princesa de novo muito chorosa.
Depois de várias lutas contra grupos invasores, participaram na batalha de Aljubarrota, onde, apesar da vitória, o Nobre Fidalgo Montemorense ficou gravemente ferido; conseguindo regressar a casa, viria no entanto a falecer nos braços da sua amada.
Com muitas honras, muito sofrimento, e muita dor, o Fidalgo foi enterrado no nosso castelo, onde apenas a notícia de que a guerra tinha terminado, conseguia aliviar a tristeza geral.
Com a paz a reinar em Portugal, e com o marido morto, era chegada a altura da Princesa seguir o seu destino, e regressar ao Reino de seu pai.
Numa fria manhã de Outono, a Princesa preparava-se para deixar o castelo, e, acompanhada pelo povo, dirigiu-se à porta de armas, onde os soldados em guarda de honra lhe prestavam homenagem.
Nessa altura, a Princesa olhou para trás, e viu junto dela muitos gaiatos, que lhe jogavam flores, e o povo que lhe acenava com lenços.
A Princesa tentou partir, mas os seus pés não se conseguiam mover.
Voltou-se de novo para trás, e viu que os gaiatos se afastavam, e que o povo guardava os seus lenços.
A Princesa olhou para o céu, sorriu, e, com um passo miudinho, regressou ao palácio, acompanhada pelo povo que lhe dava “vivas”.
Ao chegar junto do Alcaide disse-lhe que, antes queria que ele a mandasse matar, e a enterrasse junto do marido, ou que a mantivesse ali prisioneira para sempre, mas que não a obrigasse a abandonar Montemor.
- Podes ficar para sempre, foi a resposta do Alcaide!
E assim foi, e, ainda hoje, a Princesa Moira vagueia “encantada” pelo castelo.
Muito poucos a viram, em noites de luar, a pentear os lindos cabelos, numa das janelas da torre do Anjo, mas muitos são os que são os que foram por ela “encantados”, não conseguindo deixar Montemor, ou não resistindo ao regresso, nem podendo ficar muito tempo sem ver a torre do castelo.